Nova-iorquinos renovam via abandonada

Nova-iorquinos renovam via abandonada

A linha de trem foi o local o escolhido para a reforma e acabou se transformando em um dos mais belos parques da cidade

Por Mariana Barros*

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Uma linha de trem suspensa e abandonada transformou-se em um dos mais queridos parques dos nova-iorquinos. A história do High Line Park abriu o segundo dia da edição paulistana do ArqFuturo, um dos principais eventos de arquitetura e urbanismo e que vai até amanhã no Auditório do Ibirapuera. Joshua David e Robert Hammond, fundadores do movimento que culminou na criação do parque, contaram como surgiu a ideia de transformar uma linha férrea obsoleta em um projeto urbanístico. O mais interessante é que da concepção à manutenção, tudo ficou à cargo dos moradores e da iniciativa privada, tendo o poder público contribuído principalmente como um articulador e viabilizador da proposta.

David e Hammond contam que tudo começou com a criação de um logotipo capaz de traduzir a preocupação deles com o design e salientar como isso seria preponderante no projeto. O logo, que combina o “H” de High Line com o desenho de uma linha férrea, foi importante para sinalizar o comprometimento e a seriedade deles em levar a coisa adiante. Contrataram então um fotógrafo para clicar o espaço como estava, repleto de uma vegetação brotada ao acaso, a partir de sementes levadas por pássaros e pelo vento. A paisagem era tão linda, espontânea e única, que imediatamente ganhou uma legião de fãs. A partir daí, essas pessoas começaram a engajar-se no projeto e a propor as mais variadas ideias para serem colocadas em prática. Foi criado um concurso aberto para que todo mundo pudesse dizer o que faria naquele trecho de 1,6 km. Entre as mais curiosas, apareceram as de criar uma piscina de 1,6 km ou uma montanha russa que percorresse toda a extensão. Boa parte delas integrou uma grande exposição na Grand Central Station, cujo objetivo foi engajar toda a cidade no que estava acontecendo. A repercussão foi enorme.

Lá no início da articulação, o então prefeito Rudolph Giuliani opôs-se a qualquer que fosse a iniciativa. Logo Michel Bloomberg assumiu e, como toda aquela efervescência em torno do futuro parque, deu sinal verde para que a ONG Friends of High Line, liderada por David e Hammond, prosseguisse.

Em vez de conceber algo e apresentá-lo à comunidade, a ONG fez o caminho inverso, realizando dezenas de encontros para ouvir o que as pessoas desejavam. Eles não se comprometeram a realizar esses desejos, mas apenas a ouvi-los e posteriormente a explicar por que dariam ou não dariam certo. Com todo esse material em mãos, foram consultados alguns escritórios de arquitetura interessados em fazer o projeto final. O escolhido foi o James Corner Field Operations, principalmente por ter enxergado que o parque era uma via de acesso a ser percorrida a pé, ou seja, um espaço de lazer voltado à mobilidade urbana. Com o projeto em mãos, veio o mais difícil: levantar fundos para implementá-lo.

David e Hammond fizeram uma conta bem interessante. Os imóveis ao longo do parque valorizariam tanto, que os impostos recolhidos desses proprietários seriam suficientes para que o investimento se pagasse. A dupla pesquisou experiências ao redor de outros parques e constatou que a valorização do entorno havia ficado entre 6% e 13%. Calcularam um custo de 100 mil dólares e posterior arrecadação de 262 mil dólares. Na prática, o custo ultrapassou a estimativa, ficando em 150 mil dólares. E a arrecadação mais ainda: 900 mil dólares.

Hoje, a ONG é mantida pelo apoio de empresas e doações de usuários, que muitas vezes também atuam como voluntários para fazer a manutenção. O parque realiza 450 programas por ano, entre atividades para crianças e shows gratuitos. A frequência, estimada inicialmente em 200 mil visitantes, é atualmente de 4,5 milhões de pessoas por ano. Claro que o sonho dos paulistanos é um dia ver o Minhocão transformado em algo semelhante. Por enquanto, ele é apenas uma via asfaltada onde os carros se amontoam ao longo da semana e as pessoas caminham aos domingos. Bom, talvez isso seja um começo.

*Mariana Barros é jornalista e autora do blog Habite SP

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